terça-feira, 19 de julho de 2016

Minha guelra (minha asa)

Nem todo poema
se encaixa
naquilo que sentes

Pois a literatura não é exata
como a engenharia automobilística
Ela tem a sua ginga
e a sua beleza

Podendo ser tão métrica
quanto um beijo de saudade
um tremor de medo
e tantos outros tipos
de coisas que gostas

Como o jeito que os cabelos ficam
quando tens teu rosto contra
o da pessoa que amas,
surge adoração entre olhares:
são muitos os números que poderiam precisar
o que dá pra se dizer
nessas horas de carinho

Mas o silêncio é tão gostoso
que é melhor não inventar moda

Tu esfregas tua testa na dela
É tão bonito

E disputam pra ver quem consegue
ser mais pobre no discurso
Vai vencer quem te inclina a cuca
E diz bem claramente
com a boca já colada
no pé do teu ouvido

Que "não quero passar um
segundo sequer
dessa vida
ou de outra qualquer
sem esse você que você é

...

e é tão bem
Minha guelra
Minha asa
Deve ser fácil de saber

Que eu gosto um monte de você"

quinta-feira, 19 de maio de 2016

É tão grande a facilidade do pecado

É tão grande a facilidade do pecado
Quando não te tenho por perto,
Tenho me sentido cansado.

Saudade traduz a essência do pecado,
Pois são ambos de pesar bastante tristes.
Em constância, repousam ao meu lado,
Lamentando que tu não mais existes.

Só a inocência afasta o mundo da desgraça,
E, isso, não há criança que não possa.
Deixem-nas rezar da forma que sabem,
Deixem-nas brincar e rir da vida.

Visito o lugar onde serás enterrado,
E meu nome está escrito nos convites.
Será que estou lendo algo errado
Ou não me lembro, e eu e a vida estamos quites?

Lendo a lápide, enxugo a lágrima que embaça,
Pra acariciar, com carinho, a pedra grossa,
Que guarda, sob ela, tantos sonhos que ali jazem
"Em memória da minha infância querida.".

E é tão grande a facilidade do pecado
Ao fingirmos ser o certo
Não saber o que é errado.

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Te sorri ao lado do limoeiro

      Àquela altura da minha infância, eu já não ignorava as coisas que não entendia, e, de algum modo, sabia que muitas delas fariam sentido em determinado momento. Eu costumava folhear uma pequena publicação regional que circulava aos domingos, e cheguei a fazer muitas descobertas que nunca me causaram grande impacto, apesar de parecerem bastante relevantes. Vez ou outra, um poeta amador tinha a oportunidade de expor alguns versos na última seção: a almejada “Ponto final”, um breve espaço dedicado às mais diversas observações dos fiéis leitores. Por um destino que, hoje, eu simplesmente aceito, encarei, com certo descaso, duas linhas atiradas ali, de forma discreta e firme. Sem enfeites ou apresentações, aquela última página de folhetim expunha o seguinte:

“Se não é dito um olhar,
Um toque, logo, é mudo.”

Não me atentei ao autor, e, provavelmente, faria o mesmo hoje em dia. Contudo, nos próximos anos, eu carregaria essa curiosidade, como se eu tivesse deixado de agradecer algum favor a um amigo desaparecido.
      Eu já havia passado dos trinta quando Aline tinha apenas dois anos. Seus cabelos lisos e nome eram iguais ao da mãe, no entanto, os olhos eram parecidos com os meus. E esses olhos corriam curiosos pelos cantos da casa, indicando que algo ali estava faltando. Percebi que fazia a mesma coisa, às vezes. No parto, sua mãe dispôs da vida para dar lugar à de Aline. Pouco antes de ceder, ela não chorava, mas suava muito, enquanto eu, em contrapartida, sentia o peso de todo tijolo de cada casa no mundo desmoronando. Com o rosto junto ao meu, ela me fez prometer que contaria histórias à criança, e eu apresentei uma resistência momentânea em fazer aquilo sozinho. Suspirava, baixinho, seu eterno amor, e eu apertei sua mão com força, certo de que isso reverteria aquela situação. Entre um beijo e um último apelo meu, Aline nasceu, e me lembrou de que eu tinha algo a cumprir.
      Após familiares, tanto os mais próximos quanto os de mais longe parentesco, deixarem bem claro a sua opinião de que eu não seria capaz de cuidar de uma criança prematura sozinho, Aline dormia em meu colo, já com quase um ano, enquanto eu agradecia, via telefone, outra oferta de “uns dois ou três meses aí, caso você precise de alguma coisa”. Por cuidar da parte financeira da empresa, trabalhava, agora, em casa, e confesso que me surpreendi com essa decisão por parte do diretor. Ao explicar a situação e o motivo de ter de pedir demissão, ele apoiou a cabeça por alguns segundos em um punho fechado, e depois de pouco tempo perdido em um pensamento, disse que sofria de insônia por não poder ter mais tempo para o filho. Durante a noite, ia várias vezes ao quarto do menino, e lhe fazia um cafuné, com cuidado para não acordá-lo. Voltando à nossa realidade, elogiou brevemente a minha forma de trabalhar, e beijou a mãozinha de Aline, que já estava um pouco impaciente.
      Quando o Sol se mostrava apenas da cintura para cima, era hora de descermos ao quintal. Sem notar, aprimorei um talento que, até então, desconhecia: eu era um exímio contador de histórias. Aline nunca deu muita atenção aos meus contos fantásticos, cheios de personagens enigmáticos e desfechos brilhantemente arquitetados. Nisso, lembrava da cara que minha esposa fazia quando lhe contava alguma piada que ela não entendia, e resolvia dar preferência a singelos animais falantes e romances variados. De qualquer forma, tentava encaixar alguma trama mais elaborada, mas a história acabava ficando sem muita qualidade. Nesse caso, era melhor se ater ao básico, mesmo.
      Ela se mantinha focada em todos os pés de frutas, e essas lhe arrancavam uma expressão de contentamento instantaneamente, caso fossem colhidas. Suas texturas e cheiros eram motivo de festa, devendo vir daí o conceito de simplicidade. Tanta alegria se converteu, certa vez, em um riso quieto, que, como onda junto à costa, marca tudo que toca. Naquele momento, me lembrei de que eu era feliz.
       Perto do seu aniversário de três anos, eu preparava nosso almoço, enquanto Aline brincava ao meu lado, na cozinha. Havíamos assistido a um filme na noite anterior, e eu estava inconformado com o final repentino e sem lógica. Concluí que ela também achou o mesmo, apenas não queria se manifestar sobre. Num descuido, esbarrei na tigela que continha a salada, que se transformou em um lençol de cacos e folhas pelo chão. Ela ignorou o acontecido a ponto de me deixar sem reação: o estrondo sequer atrapalhou a concentração quase sagrada que ela mantinha acerca de suas pelúcias. Eu, no entanto, lamentava: nada de salada para o almoço.
      Já sem a desconfiança de que os meus assuntos não eram interessantes, eu começava a ficar em dúvida em relação a algumas atitudes da pequena. Aos três anos, ela balbuciava um ou outro som, e nem a chamando pelo nome eu conseguiria um olhar em resposta. Levei-a ao médico, apesar de me recusar a pensar que a minha suspeita estava correta.
      Aline tinha um tipo de surdez profunda. Seria necessário um implante que, além dos benefícios, traria, obviamente, os riscos de uma cirurgia desse porte. Perdi os movimentos do rosto brevemente. Antes de agradecer e precipitar nossa saída do consultório, tive de me atentar à ótima interpretação de que estava entendendo perfeitamente tudo que me foi dito após o diagnóstico.
      Em casa, estávamos no balanço, como de costume, e a tarde se preparava para dormir. Minhas mãos se perdiam por entre os longos fios negros que já transpassavam o ombro de Aline. Pela primeira vez, eu estava sem criatividade. Ignorando sua incapacidade por um instante, cheguei bem perto de sua orelha e disse que a amava, como se estivesse lhe contando um segredo. Ela continuou a observar algum ponto distante. Com lágrimas que pareciam estar atravessando um muro, olhei para cima, no intuito de me desculpar com sua mãe, já que eu não havia conseguido realizar seu pedido. Como um reflexo, Aline agora me encarava, colocando sua cabeça contra o meu peito. Em sequência, espiou meu rosto através dos seus pequenos dedos, e sorriu espontaneamente. Aquele autor desconhecido, anos atrás, já havia me advertido que não se diz um olhar. Por sorte, ele não sabia como não o ouvir.
      No céu, a Lua crescia. Era quase Natal.

terça-feira, 11 de agosto de 2015

Como flores que caem

             Me custaram alguns anos para perceber que a diferença de idade entre eu e meu irmão nunca diminuiria. Derek apresentava uma tranquilidade imensa ao responder minhas maiores dúvidas, coisa que me irritava, por vezes. Quando questionei o motivo do nome da nossa cachorra ser Daisy, ele simplesmente me disse que eu deveria conhecer melhor a literatura americana. Nada justificou esse seu jeito esnobe até eu me dar conta que qualquer conduta diferente da dele me soava falsa. Eu o admirava, e isso era um segredo até para mim.
             Nós fomos, de certa forma, melhores amigos, por um curto período de tempo. Após as minhas tentativas frustradas de lhe acertar o rosto com um murro (na minha cabeça, ele imploraria misericórdia, e admitiria ser uma pessoa de comportamento repulsivo), Derek começou a dar sinais de que estava arrependido desse seu jeito abominável de ser. Por exemplo, quando Martha Salet lhe disse que – parece que escuto o tom anormal que ela empregou em seu aborrecimento – “Phillip é muito mais cavalheiro que você, seu estúpido!”, antes de bater a porta da entrada de casa com uma agressividade desnecessária, ele me abraçou com os olhos cheios de lágrimas. Aquilo, sem dúvida, era uma redenção mais do que justa. Perguntei quem era Phillip e ele fingiu me ignorar, com o rosto quase fundido ao meu couro cabeludo, me deixando sem muita reação. Lembrei que ele e Martha haviam ido ao cinema naquela semana para assistir um romance, e talvez Phillip fosse o nome do galã. Lhe aconselhei a não ficar se espelhando em filmes, e se Martha queria uma vida de atriz, ela deveria, ao menos, não falar tão errado. Derek riu e me deu um beijo no rosto. Era a primeira vez que ele fazia aquilo. Após limpar minha bochecha com certa urgência, vi que havia ganhado a guerra.
              Com isso, veio nossa amizade. Derek me livrou de diversas brigas na escola, já que a maneira como ele colocava a mão sobre o meu ombro espantava uma meia-dúzia de ignorantes que insistiam em caçoar do meu pouco tamanho. Eu chegava a me divertir com ele em alguns momentos, mas ficava atento ao seu cinismo de quando ele me elogiava. Quando reparei que ele realmente estava impressionado com o que eu havia feito (certa vez, no seu aniversário, lhe dei uma miniatura de carro em madeira com seu nome escrito na porta do motorista, em letra cursiva), vi que esse cinismo era coisa da minha cabeça. Ou ele fingia muito bem ser uma pessoa agradável.
              Não sei dizer se ele era religioso. Íamos à missa quinzenalmente, e há quem diga que isso não é um sinal de fé indiscutível. Contudo, o fato de ele fazer o sinal da cruz quando se livrava de alguma enrascada me deixou intrigado. Seria alguma forma de escudo mental místico? Por alguns segundos, tive a certeza de que Derek não era desse planeta, além de ser um esquisito. Perguntei o motivo, e ele, mais uma vez, com a serenidade de quem acabou de adormecer, me falou que era bom acreditar, e que eu deveria fazer o mesmo. O encarei. Resolvi seguir seu conselho, mas estabeleci que isso não iria se repetir.
              Ele andava muito quieto. Àquela altura, a separação dos Beatles já tinha acontecido há um mês, e não poderia existir outro motivo para tanta cara feia. Um dia, sobre a nossa escrivaninha, encontrei, debaixo de uns papéis que usaria pra desenhar, um telegrama, exageradamente perfumado, em papel rosado. Desdobrei-o. A caligrafia horrível indicava a autoria de Martha. Ela dizia (ou, pelo menos, tentava):

“Quero visitá-lo até o fim do mês. Eu sinto muito. Levarei aqueles biscoitos que você gosta.”

Mal sabia ela que Daisy era a única admiradora daquela preciosa receita.
              Estávamos, então, no começo de junho, com a primavera já dando seus últimos suspiros. Tínhamos, no quintal de casa, uma flor que, por ironia de alguma força maior, também se chamava primavera. Sempre achei isso de tamanha redundância, mas como eu não tinha tanta criatividade para dar nome a flores, acabei aceitando sem reclamar muito. Derek era fascinado por elas, especialmente pela de cor vermelha, que ele adorava se gabar por ter plantado alguns anos atrás. Mas eu não o criticava por isso, até porque eu teria a mesma atitude.
               Um dia, na longa estrada que era do corredor até o nosso quarto (nos dias de frio era impossível andar descalço por ali), meu pai e minha mãe interromperam meus planos de ir correndo para a cama, e se agacharam para conversar comigo. Eu gelei. Com certeza eles haviam descoberto algo que nem eu sabia o que era, mas deveria ser muito ruim. Na verdade, eles só queriam dizer que Derek estava um pouco chateado e queria conversar comigo. Respirei aliviado e segui meu caminho. Não entendi o motivo daquele susto, Derek e eu ficamos juntos a tarde toda, e ele mostrou muita indiferença às minhas provocações sobre o seu novo visual. Estava carequinha, parecia que acabara de ser convocado.
               Chegando ao quarto, vi que ele estava com o carrinho que lhe dei, meses atrás. Olhava para o seu nome e sorria, um sorriso que nunca entendi, pois, geralmente, os sorrisos são alegres. Esse me trazia certo receio, e eu fiquei aguardando, como se aquela cena fosse a mais bonita que eu já tivesse visto. Derek pediu para que eu me sentasse com ele, e começou a me contar uma história da época em que nasci. Isso me deixou apreensivo. Aquilo parecia uma despedida, e ele sequer me falava boa-noite, muitas vezes. Escutei como se ele me contasse um segredo, encaixando cada movimento da sua boca às frases que pareciam ter sido tiradas de algum filme. Derek me fez chorar, mas, dessa vez, eu ainda não tinha um motivo. Ele revelou que estava doente, e pediu desculpa por não ter me contado antes. Eu não entendi muito bem, e não sabia se estava orgulhoso por vê-lo se desculpar. Na verdade, aquilo me deixou triste. Talvez eu não devesse, mas resolvi demonstrar um pouco de afeto e dizer que toda doença passa, é só não querer apressar as coisas. Uma semana deitado e pronto. Ele concordou, e, sorrindo aquele sorriso de novo, me beijou pela segunda vez. Por não saber que aquela seria, também, a última, não retribuí. Eu descobriria, um tempo depois, que arrependimento é uma responsabilidade muito grande.
                Derek continuou com o seu modo simples de encontrar soluções, e aquilo não me irritava mais. Estávamos no inverno quando ele partiu. Às vezes, me pego olhando para a sua primavera, que, há tempos, dentre todas ali, é a única que não fica um dia sequer sem o seu tom avermelhado. Foi assim que eu aprendi que as flores também sentem saudade.

terça-feira, 9 de junho de 2015

Concepções de um recém-cego

Alguns garranchos distribuídos por aquele papel
Indicavam que o autor estava, certamente,
Muito insatisfeito consigo.
As letras pareciam brincar, de forma inocente,
Talvez a mesma brincadeira que as nuvens fazem no céu.
Uma despretensão que não apresentava qualquer tipo de perigo.
Mas havia um tom fúnebre, além da morbidez que jorrava,
Como uma goteira que pinga por noites e noites, em uma casa abandonada,
E não existe sequer um plano inconsciente de cessar.
Afinal, um objeto não pode, por natureza, pensar.
Concluo que o responsável por aquele grafismo curioso passava,
Sem a mínima intenção, seu pensamento de objeto, que não pensa nada.
Sendo assim, tudo naquele papel era nulo.
Lápis de cor nenhum atribuiria qualquer característica de vida àquela inconsistência,
Que, por insistência,
Transformava o que se conhece de felicidade em seu conceito mais chulo.
É possível que a morte, por ela mesma, se definisse com aqueles exatos dizeres.
Traziam, aqueles rabiscos, um luto que, se traduzidos em um grito,
Destoaria, em um choque, de tudo que há de mais bonito,
E mancharia a definição que provamos dos mais diferentes prazeres.
Arquitetado com mínimos resquícios de otimismo,
Aquele texto mal escrito gritava por atenção, e ficava ofegante por falar demais,
Como uma criança perdida em um parque, procurando pelos pais.
Era, aquilo, uma demonstração de que até a existência, por vezes, é puro cinismo.
"Sento, e sei que estou sentado,
Não pela forma do banco, mas sim pelo conforto que isso me traz.
Sei, também, que a velhice, dia após dia, se faz.
Contudo, não tenho o prazer de me sentir enrugado.
Me sinto preso em um espelho se despedaçando,
E, a cada nova rachadura, uma memória se esvai.
Eu sou uma parede inteira coberta por molduras.
(Nessa linha, um risco forte afundou o papel, quase o atravessando.
Uma lágrima minha cai
Em meio a todas aquelas amarguras.)
Assumo o compromisso, como qualquer um faria,
De encarar de uma outra maneira,
Mas de quantos olhos eu precisaria
Para enxergar além da cegueira?"
A cada verso decifrado, eu parecia despertar a marretadas, e, por seguidos instantes,
Fez-se palpável a escuridão daquela tentativa de discurso,
Enquanto o rio levava, para lugares distantes,
Segredos que se perdiam, e ficavam presos por entre as pedras do seu próprio percurso.

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Transe

Além do piso que tu, sem expressão, miras,
O banheiro tem um tom enegrecido horrível.
Aliás, tudo ali é de muito mau gosto,
Inclusive a música, já inaudível,
Que, como agulha num disco, te riscou o rosto.
Hoje és marcada e tuas costelas dão as caras.
Teus dedos são só dedos, mas insistes
Que te beijem, que te mandem flores,
E façam de tu o maior de todos outros amores,
Um devaneio de um tão pequeno segundo.
O prazer que tu tornastes imundo,
Vai de promíscuo a solitário, e são gemidos tristes,
Em tua banheira, mergulhada em sais.
Nesse cômodo, és apenas uma pessoa amarga,
Um buquê de papel, sem sequer pétalas ou hastes.
Tu sentes, enfim, o exato peso da tua carga,
E segues cega com os antolhos dos animais
Que, com espora, tu, sorrindo, marcastes.

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Toda

Se resumiu num corpo só
Toda aquela ambiguidade
De existência,
E num piscar desfez o nó,
Que trazia, por caridade,
Toda sua carência.
A necessidade se afastava do querer,
Eram significados distintos, incrivelmente distantes.
Flexionavam-se os músculos,
Como, em espaços minúsculos,
Se encaixam carícias gigantes?
Ninguém deve ou faz questão de responder.
Mata o calor do corpo com o vento que vem da boca,
Marca os dentes onde der,
Faz da voz rouca coisa muito pouca
De toda definição de homem e mulher.