sábado, 20 de dezembro de 2025

boa praça (você é massa)

o ego é um erro do corpo,
morto fora de mim o imagino

que eu seja um agente pacificador
em meio a um ambiente de caos

você pode engatilhar todos ou os quase
trinta e dois dentes da sua boca
pra disparar bons-dias aos seus afetos,
e até aos que não muito,
este é um conselho de amigo

é fácil tentar querer ser
só mais uma pessoa maravilhosa,
se espelhar naquelas que iluminam,
que despertam alegria quando vistas
e deixam saudade por onde passam,
nem que seja a vontade
de qualquer assunto banal

dizer coisas bacanas pra tirar o medo,
ser simpático pra além da sua dor nos pés

e pra cada choro que escorre ao queixo,
só pensar naquele dia nota dez,
e quantos outros vieram após

desse jeito é lembrado um vencedor,
isso é algo de alguém exemplar,
humanos fantásticos entre nós

só assim você terá mais claridade
ao perguntar a si mesmo
se é esse, realmente,
seu merecido cravado destino

o ego é um erro do corpo,
eu o abomino

terça-feira, 24 de janeiro de 2023

o superpoema

fascinado pelos símbolos,
os óculos lhe escorregavam no rosto:
de fato, a pele oleosa era o mesmo que um troféu,
um discreto reconhecimento da natureza
pelos longos momentos de busca que lhe entortaram a coluna

aquele homem aparentava ser familiar com todos os conceitos de vida,
e, inevitavelmente, buscava fazer jus ao contrário

apesar de nunca obter êxito,
havia, até então, criado circunstâncias inóspitas,
além de metáforas do mais confuso entendimento,
onde o medo do tempo era um obstáculo quase que imbatível

anos de melancolia lhe custaram o desenrolar dos dias,
mas era essa incessante perda que lhe servia de combustível,
já que, intrigantemente, esse parecia ser seu maior impulso,
pagando a sua dívida com a curiosidade
com sua constante perda de cálcio nos ossos:
lhe parecia um preço justo, dado o absurdo

acomodado numa cadeira de tranças semi-desfeitas,
um simples ser humano percebeu seu destino,
e decidiu escrever o que apelidou de superpoema

se sentiu um tolo pela prepotência,
mas sempre admirou pequenos atos de subversão,
por mais inocente que este fosse

com um sorriso idiota nos beiços,
inconscientemente tinha os olhos cimentados na mangueira,
assim como em coloridas mangas apodrecidas
que serviam de banquete a pequenos insetos

o ciclo completo, naquele instante, era óbvio

a pequena ponta de uma indiferente caneta esferográfica
bordava o desfecho de tarde para que se desse à luz a noite

pela primeira vez, entendeu o que era não sentir nenhum receio,
já que essas afirmações sempre lhe pareceram falsas e desesperadas

pôs-se de joelhos a implorar por um último discernimento,
algum que nunca tivesse tido,
mas esse tipo de desejo não possuía um destinatário,
e, portanto, ele não obteve resposta alguma

sacou o papel e engatilhou o que havia entendido,
dobrou a nuca de boca aberta,
pronto a disparar sob o título sua mais nova criação

quieto, o poeta não podia mais pensar,
e o peso do seu corpo, agora,
amassava dois pequenos versos
que resumiam todas suas terrenas constatações

nenhuma outra apresentou tamanha sinceridade,
sem contar a facilidade de interpretação,
que, ao mesmo tempo,
apenas alguém em paz teria o direito de clamar

esta é a história de cada um de nós

superpoema

eu vivi a vida.
como é lindo o céu

quarta-feira, 7 de setembro de 2022

sobre quando aprendi que tudo acontece

as noites de insônia me pregaram peças
por milhões de anos engarrafadas

querubins e místicos as ensaiaram
pra que elas coubessem nos meus folhetins

nos momentos em que desejei não sentir,
o suspiro quieto simplesmente não bastou

por isso me bateram lágrimas no rosto,
e é no meio do mundo que elas moram

me mandei bilhetes me contando tudo,
aparentemente, esqueci por querer

ouvi o caso esplêndido de um viés antigo,
não tiveram pena, mastigaram-me e cuspiram-me

ao voar, notava que por mim passavam
mil diversas garças do mais branco tom

nas suas asas não achei meu medo,
e em seus bicos me certifiquei:

que vida interessante,
e brindei com o amigo de ar

enquanto a mão pairava sem assento,
acenei de olho fechado; fui embora feliz

quarta-feira, 29 de junho de 2022

diante do lago dos sonhos mais uma vez vislumbrei você

hoje o papo em sonho foi o mais interessante
que de alguns anos pra cá nós dois conseguimos ter

era uma coisa diferente, o abraço foi mais gostoso,
as duas mãos moldadas no relevo das costas tortas,

um novo poder-te-olhar sem querer entender demais,
era bom estar ocupado por completo pra se divertir

foi uma conversa muito fácil,
fiquei feliz por não me ter feito acordar

durante o dia, eu sei como é, coincidências vão chegando,

será que é você me dizendo
ou será que sou eu te escutando?

-- 

outro dia imaginei um local sem limites de terreno,
porque não sei até onde ele ia e o que poderia estar em volta,
era uma mesa enorme e de amigos somando aos cachos,
tinha tanto amor naqueles diálogos
que todos os copos se enchiam magicamente

me peguei pensando se é assim que é o céu,
e eu nem ligo mais pra céu,
só me pareceu o termo certo

depois desse sonho de hoje tive a mesma sensação,
será possível eu estar atribuindo
todos esses pequenos momentos de felicidade pura
a uma realidade que me parece
inatingível ao ponto da desilusão?

eu não sei, um sentimento de estar bem e não parar,
ouvir as bocas dessas pessoas dá prazer,
eterno é ver teu rosto lindo de amor me enriquecer

--

hoje aquele olho olhou
lá na minha alma,
e eu, despreparado, entendi

ele me esverdeou,
e de árvores me encheu,
pra poder me desligar

depois, me desmatou,
me ligou pra me viver,
e eu, de pronto, atendi

sexta-feira, 17 de junho de 2022

o concreto abraça à meia-luz as lágrimas dos de caminho sinuoso

isto é a alma que observa:
rasgam-se os lábios pra lançar no ar
fatais frases de golpes mirados

elas se estiram nos corpos,
elas são o mais grosso meio
do mais fino dos propósitos

foi vibrando em cordas firmes
de um instrumento decadente que eu ouvi
a mesma dor que o punho sente
ao se escrever meu coração

tudo que há no corpo é chumbo, é muito,
um peso imundo e muito moribundo, é fundo,
são tristes inocências que vieram a falecer

nos meus poros cavam os seus túmulos,
destoantes fins, finalidades, meras casualidades
que há bom tempo a própria terra estremeceu

por contar estória após estória,
e encontrar tortura em mesmas notas,
velhos rostos ritmados, demarcados,

os escritos e os tocados vão mostrando
nos dentes dos seus sorrisos
passo a passo, como que é se repetir

lá no fim da rua a lua sua
lágrimas de vento, nua,
não há ninguém com pano à mão
pra lhe enxugar a aflição,
ela me vê

este frio que me estoura a mandíbula
eu guardei na minha ferida,
a fim de congelar

até que a pele apele e possa
se mostrar até os ossos

eu não sangrei, e nem sequer doeu

mas, deus, como eu morri

meu deus, como eu morri

sexta-feira, 14 de janeiro de 2022

hoje eu me tomei nos braços

há uns vinte anos cri que poderia
negociar um objeto do armário:

era um pedaço de plástico torto,
sem bexiga na ponta, amassado 

"leva pro seu filho, moça,
olha que bonito, ele vai adorar",
e reconheci no tom da minha voz
a grande pena que por mim sentia,

do quanto eu detestava
criar esse cenário tosco
pra poder ter mais certeza
de que eu, de fato, merecia
não ter amigo algum

essa ferida é um tiro e me matou

depois de ouvir a minha história,
voltei à loja que criei em mente,
comprei o produto que não era nada,
e que pra algum cliente imaginário
eu não obtive sucesso em vender

passei de forma despretensiosa
pra dar de cara comigo brincando,
e até as músicas que eu escutava
não imaginava que iria lembrar

meu eu criança não entendeu muito,
me deu a mão pra me levar pra sala,
com o olho tímido pegou o controle
e me pediu pra ficar mais um pouco

a conveniência que existe
em todo pequeno momento
me convenceu de que havia
tudo do mais importante
a ser feito imediatamente

hoje eu me tomei nos braços,
me dei um beijo no rosto,
pedi desculpa por não aparecer,
me deixei ali sozinho
e até agora me espero voltar

são por esses motivos quietos
que eu vivo tentando não pensar
que morro de medo de me esquecer

quinta-feira, 3 de junho de 2021

cimento fresco

como é bonito ser cultura
alguma coisa inesperada;
encaixar um título errado
numa fotografia errada
pra ilustrar erradamente
músicas, versos errados

ouvir o autor cantar
me amacia as safenas,
meu sangue é cimento fresco
pronto pra ser vandalizado

no virar da rua encontro
o que me faz suar da testa
um nervosismo líquido,
e se isso faz parte de mim,
agora, eu me derreto

eu escorro pelo chão preto,
e feito lava meus pedaços
por aí sem rumo fogem

antigos pensamentos desossados
agora apresentam com pompa
uma estranha postura humanoide,
aprenderam minha língua
e com um jeito descolado
comigo só fazem conversar

outro momento, agora me sento
em lugares que nunca estive,
são frases que nunca ouvi
que pacientemente me explicam
que só sumir não é sumir só

chega no fim mero sopro
daquilo que eu pude ser,
do que eu tive sorte de ver
e dos segundos miúdos
que me viraram troféu,
se eu me permitir lembrar

tem sentimento que é morte
e palavras fáceis de digerir,
cravadas em vozes roucas

existe uma espiral piedosa
onde estão presos os gritos
que saem de todas as bocas

hoje choveu no meu rosto
um ano que passou faz tempo,
e de olhos abertos eu soube
reencenar cada e todo ato

quinta-feira, 13 de maio de 2021

uma dor infernal

a arte que é necessária
se mostra quando é feita

da mesma forma que

a arte quando é
se faz necessária

a arte que é feita é fruto
da parte que parte, em parte,
do parto de tudo que é perto:

daquilo que eu sinto
e do que você sente

e, assim, é claro pra mim
que tudo que dá pra sentir
é regente, e, portanto,
é da gente, é nosso

a arte que é falada tem tom
que se vibra em terremoto
caso dita de jeito dito novo

ela enfurece o mar
e causa maremoto

ela é o ladrão de joias
do cinema antigo,
se disfarça vento
pra não deixar rastro

a arte obstrui a última veia
que leva o último impulso
num último pulso de vida,

vai ao bairro recém-erguido
pra ser choro recém-parido
de um olho recém-nascido

por ser fácil amar beleza,
ela apresenta delicadeza
ao se tornar, então, horrível

é quando ela se amola e autoimola,
retalha quente as memórias mais doces
pra deixar vivo só o que é inesquecível

triste é a arte que não acha o que matar,
pois não sentir é uma dor infernal

quinta-feira, 1 de abril de 2021

e no colo da pessoa querida sua benção lhe pedi

hoje aconteceu de novo
aquele minuto específico
que só dá pra se sentir
quando é pra ser sentido

é mais do que o momento
em que se repousa a cabeça
de seu peso em pensamento
no altar-colo que é sagrado

é saber que o olhar cansado
que te encara em abandono explícito  
carrega em seu núcleo dúvida,

que em cada resposta corporal
é feita uma interpretação imediata
de maneira inegavelmente natural,

e praquilo que se curva o corpo
é feita uma prece inédita
pra te transformar num lugar único

se isso que você enxerga
é aquele tipo de pessoa,
pode ser que naquele olho
você tenha, inexoravelmente,
um jeito de gente diferente

quando acontece de abrupto bobeira
e do nada o mundo todo só é risada,
renasce um beijo pra firmar que é coisa séria
e dá um tapa pra dizer que tá errado

no carinho desse beijo repentino
do outro lado do caminho ecoa
uma possibilidade à toa
de sentir-se assim sozinho

em dois tem muita coisa
que é melhor que em um

e mesmo que tão rápido
foi desse minuto em diante
que passaria a ser em sono
toda vez que sem palavras
me daria as soluções

meu pessoal Pietà,
minha cena Pietà,
meu pra sempre Pietà

esqueço o que tô pensando
e de volta ao minuto presente
corto as cartas e as coloco em pares,
tendo sempre nada além da sorte
de afirmar que também já fui eu
todos esses lugares

segunda-feira, 15 de março de 2021

língua brinquedo

há muito não sei mais tanto;
há muito a aprender

ora, se o humano vive
em função do absurdo
de que importa ao surdo
o que não se ouve?

nessa máxima surgem as artes,

pra que se toque quando não se enxerga
pra que se cegue ao já ter visto tudo
pra que ainda valha a pena haver perguntas

quando não mais houver
a arte estará tão morta
quanto nasceu

e quando a arte morrer
o mundo acabou
não deu

terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

que me reste o silêncio, e o silêncio, só

que me reste o silêncio, e o silêncio, só,
pra que nos momentos em que eu me esqueça de respirar
eu faça do silêncio meu ar

que o silêncio preencha meu corpo
em horas de introspecção,
que ele se mostre útil
caso eu precise aconselhar

da pessoa amada eu destilei mil salmos,
e do restante do mundo outros mil,
que o silêncio me possibilite encontrar
outras formas de entoar essas palavras

que o silêncio me faça enxergar novas máximas
naquilo que foi decretado,
que ele me aponte as perguntas em línguas,
com as respostas, por mim, traduzidas

que eu enxergue no silêncio
uma figura de autoridade,
que a ele eu seja fiel,
e somente a ele eu recorra
quando se fizer necessidade

e apenas quando o silêncio não bastar
eu possa abrir a boca para falar,
e caso, dessa forma, eu o desrespeite,
eu, de imediato, volte a respeitar

que me reste o silêncio, e o silêncio, só,
pra que nos momentos em que eu não consiga ouvir
o silêncio me ajude a escutar

sexta-feira, 13 de novembro de 2020

como fosse sonho feio (eu lhe ofereço)

às vezes, de manhã,
sinto o poder da criação,
como descrito por João Nogueira,
de o poeta não controlar,
após se dar conta disso,
seu momento de criador

e aí eu sinto uma vontade imensa
de agradecer a coisa que seja
que possa ter me mostrado
aquilo que quero dizer

até que tenho achado recorrente
esse negócio de falar que a gente
não escolhe e não participa
dessas horas de concepção

longe de mim querer
definir como faz pra escrever
uma poesia que dá certo

as palavras aos poucos cabem,
parece que elas sozinhas sabem
o que eu, sozinho, não sei

o que se cria do zero é tão forte
que se sente um beijo no rosto,
e te deseja tudo de bom

é quando a tua criatura,
suturados os pedaços,
te devolve o amor cedido,
e ela te acalenta

há de se tomar cuidado
pra não achar que é inédito
um verso que saiu bonito,
um possível sentimento novo

não entendo de magia, é verdade,
mas de cartola já puxei o que deu,
descobri que tudo no mundo acontece
e tem muito que, sem motivo, é,
dá desejo de sair espalhando,
que nem Tim Maia com o desencanto

entre tantos mil detalhes eu transito
que inevitavelmente acabo
encontrando outro significado
pra algum velho poema chinês

pra que quando inesperada matilha,
antes oculta em um lugar indefinido,
de abrupto surgir em meu caminho,
eu ofereça ambas minhas pernas,
e em muitas mordidas se dissolva
minha inata capacidade de andar,
com intuito de aprender a caminhar

e se desse mesmo local inébrio,
como fosse sonho feio eu avistasse,
num ímpeto, um esguio animal diferente,
indicando, na maldade das presas,
o perigo venenoso de seu bote,
caso viesse em minha direção,
a fim de me sabotar

é num caso extraordinário como esse
em que eu, sem intuito de ser,
viro refém e recém-réu da minha arte,
assim ofereço a esse animal a minha morte
a fim de aprender a viver

segunda-feira, 25 de maio de 2020

a gente se mata na arte

a gente se mata na arte,
e, quando noto,
já à força teço a forca
de sentido figurado,
com trapos ou outros achados
nesta imensa caixa suja
de passagens e passados

eu chuto a cadeira
e deus assopra no meu rosto,
assim eu lhe agradeço
por toda intensidade

a gente se mata na arte
e ressuscita afogado em choro,
como enxofre que se transmutasse
e novo aroma agora fosse,

a gente se mata na arte
e ressuscita doce

porque a arte dói,
ela te perfura,
ela quer que você se vaze
até não sobrar mais nada

porque a arte dói
é por que eu sou

porque a arte me bate,
ela me estressa,
me embebeda, me inebria,
me enjaula, é corrosiva
e me engole,
a arte é desgraçada,
e eu sigo seu exemplo
de se desembaraçar
sem pressa,
sobre escombros debruçada

é quando acordo
e de manhã logo me curvo,
implorando, outra vez,
que a arte me desafie,
eu suplico que a arte me proponha
novas chances que eu não tive a capacidade
de conseguir imaginar sozinho

eu me fundo ao que escuto,
adoro coisas que vejo,
e, enquanto caminho,
pontuo sobre o som agudo
que me vem ao ouvido,
vez em quando,
e eu não ouço nada

porque se antes só sofria eu,
agora, a arte comigo sangra,
ela é a chave da tranca
do banco onde guardo
tudo que é meu

a arte é minha,
e a arte sou eu

quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

como você tá é como eu tô

inspiro o feitiço,
e estou, então,
enfeitiçado

este texto é um curto-circuito,
portanto, ele é pobre em encanto,
eu sinto muito,
e eu sinto tanto

este texto não tem coluna,
ele se arrasta pelo chão,
e seu rosto se desconfigura
em constante levanta-e-cai

existe sentimento que não se explica,
apenas histórias que são faladas
e histórias que são escutadas

o que se perde pelo meio
são detalhes ignorados
e entendimentos diferentes,
são palavras que morrem
afogadas em seus receios,
mas onde são enterrados
os pensamentos indigentes,
pensamentos que são feios?

no abrir da boca mole
sai da fala coisa pouca,
residindo, ali, por norma,
os mais mistos misticismos

como o texto que é sem forma
aos poucos toma seu contorno,
você, em seus rascunhos,
se cala, e, quando fala,
não mais se desdenha:
você se desenha, e não me espanta
ver suas novas curvas
em renomada animação

os filmes não acontecem
quando seus olhos estão fechados,
sequer músicas, devagar, se tecem
com seus ouvidos tampados

fabrico respostas que não existem
pra diálogos que não acontecem,
é um planejamento engraçado,
esse, de tentar entender tudo

por isso, quando eu me sinto eu,
eu me sinto você,
eu sinto tanto,
e eu sinto muito

...expiro, assim, o feitiço,
que me abandona,
de forma, apenas,
tão figurativa


se soubesse recitar,
eu recitava,

mas, como só sei repetir,
repito, pra decorar.

havia aprendido o que era mantra,
e, dali pra frente, aquele era o meu:

"não me pertencem as lástimas
que formam este lodo,
pois que chova o mundo todo,
e desabe em lágrimas"

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

para toda metade do seu corpo

eu amo quando beijo seu rosto
e você me olha diferente

os seus olhos mudam,
mas isso é fisiológico,
e, para as muitas coisas humanas,
já existe uma explicação
que pode não ser óbvia,
mas é lógica

é a maioria que a gente não sabe,
e se o desconhecido é motivação,
nessas horas, eu me sinto bem

uma positiva reação inesperada
é algo que faz viver melhor

saber o que vai acontecer
é uma chatice

por exemplo,
existe um motivo
pra quando eu toco
o estratégico meio das metades
do seu corpo,
e os pelos do seu braço se arrepiam

o seu olhar muda,
e isso já não tem explicação

eu me pergunto
por que você não tem resposta

esse olhar
é impalpável e ininteligível,
mas como eu entendo, na pele, isso?

como é, pra você, ser fácil
ser impossível?